Provavelmente a mudança de casa ou de instalações da empresa que desejava há tanto tempo estará neste momento irremediavelmente adiada. Os bancos estão a dificultar o crédito e os tempos aconselham prudência e contenção de custos.

Mas as razões da mudança, se não se relacionarem com a localização, deverão em princípio manter-se: inadequabilidade ou envelhecimento do espaço actual, seja porque a cozinha, as instalações sanitárias ou outros compartimentos estão obsoletos, porque a casa necessita de um upgrade geral, ou por questões de funcionalidade que não estão bem resolvidas e que no fundo nunca o inspiraram ou convenceram.

Em tempos de crise, onde saídas para jantar fora, férias e outros luxos são permanentemente equacionados, a casa tem que ser o nosso espaço de conforto, de retiro. O centro do nosso mundo. Faz por isso todo o sentido investir um pouco no seu melhoramento.

Em tempos de crise pode não conseguir investir numa nova casa mas deve sempre investir na que já tem.

Se não podemos mudar de casa, devemos tornar a que temos o mais acolhedora possível. Fazer dela um local que nos inspire no dia a dia, nos proporcione momentos de prazer, nos ampare nos maus momentos.

Se não podemos contratar um arquitecto para nos fazer uma casa nova ou para remodelar a que pensávamos comprar, é provável que o consigamos envolver na remodelação da casa que já temos. Pergunte porque provavelmente não irá custar tanto quanto está a pensar. E o resultado fará toda a diferença.

Muitas pessoas têm a ideia feita de que um arquitecto irá complicar as coisas, propor soluções dispendiosas e estranhas, por mero capricho. Podendo haver excepções que confirmem este preconceito, ele é, na maior parte dos casos, profundamente falso: Um bom profissional entende o que lhe é pedido e propõe de forma criativa soluções racionais, personalizadas e optimizadas para cada espaço. E na maioria das situações, mais económicas do que se forem propostas por um curioso, ou por alguém empenhado em vender determinado produto ou equipamento. Para além de que um bom projecto é uma injeção para o ego. Do arquitecto, mas também e principalmente do seu cliente, que para além de conhecer uma incomensurável melhoria no seu dia a dia, ainda vê o seu espaço valorizar-se comercialmente.

Uma intervenção deste tipo é sempre uma oportunidade. Ou, à posteriori, uma oportunidade perdida.
 
 
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Há umas semanas atrás escrevi um texto descrevendo como seria a minha casa de sonho na cidade de Lisboa. Logo na altura pensei também escrever umas linhas sobre como seria a minha casa ideal fora da cidade. O meu retiro, por assim dizer.

Idealmente seria num terreno com personalidade: Algumas árvores, de preferência uma vista desafogada e bonita, com boa exposição solar. Uma praia, um lago ou uma montanha seriam localizações potencialmente idílicas. Mas um terreno amplo, com relevo ondulado, vegetação relativamente densa e variada, que proporcione sombra e permita abrir a casa para a envolvente mantendo bastante privacidade, já me faria um homem feliz.

Se para uma casa na cidade o meu sonho passa por remodelar um dos inúmeros prédios devolutos que existem no seu centro, o meu sonho de “casa de campo” é um edifício feito de raiz, isolado, ou pelo menos com uma distância confortável às construções mais próximas.

A sua forma e configuração dependerá sobretudo do local em que se inserir. Por isso, mais do que descrever formalmente uma casa, este texto pretende explicar o que estaria por detrás da sua concepção:

- Será decididamente moderna e minimalista. Acredito na poesia da linha recta e a casa de um arquitecto deveria ser um manifesto dos seus ideais (o que nem sempre acontece, por experiência própria).

- Uma marca discreta mas afirmativa na paisagem, integrada com atenção ao contexto mas sem complexos, induzindo a sensação de que a casa está incrustada naquele sítio, passando a fazer parte dele, acrescentando-lhe algo, reinventando-o – fazendo o lugar: A noção de que aquele passou a ser um lugar único com a construção daquela casa, sendo possível pensar-se, daqui por uns anos, que aquela construção esteve sempre ali. E que faz todo o sentido que ali esteja. Esta não será necessariamente uma noção imediata. A arquitectura, para ter espessura, necessita de tempo, de ser testada e reavaliada vinte ou trinta anos depois de construída.

- Terá grande abertura entre interior e exterior, prolongando o exterior para dentro de casa e vice-versa, mas permitindo de forma discreta e eficaz encerrar a casa quando os seus ocupantes estiverem ausentes.

- Será edificada com materiais simples e robustos, que envelheçam bem mas acusem a passagem do tempo. Materiais que amadureçam, em contacto com a natureza.

- Simultaneamente sólida e delicada, terá grande transparência para as vistas mais interessantes, sendo opaca para as demais. A sua organização interior reflectirá a informalidade a que aspira uma casa de férias. Com o tempo, parte da vegetação envolvente crescerá em redor das paredes da casa, tornando os seus contornos menos exactos e perceptíveis.

- Cómoda e espaçosa, sem ser enorme, será fluida mas com alguns recantos e construída de forma cuidada, para ser fresca no verão e quente e acolhedora no inverno.

- Será um lugar de contemplação, de repouso e de convívio. Capaz de inspirar grandes alegrias e de acolher com dignidade tristezas infinitas. Para viver, criar laços e envelhecer, sabendo que quando já cá não estivermos quem o herdar não se vai querer desfazer dele.